{"id":53860,"date":"2025-06-22T10:12:03","date_gmt":"2025-06-22T13:12:03","guid":{"rendered":"https:\/\/euvivoaselecao.com.br\/index.php\/2025\/06\/22\/construcao-de-estradas-impacta-mangue-amazonico\/"},"modified":"2025-06-22T10:12:03","modified_gmt":"2025-06-22T13:12:03","slug":"construcao-de-estradas-impacta-mangue-amazonico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/euvivoaselecao.com.br\/index.php\/2025\/06\/22\/construcao-de-estradas-impacta-mangue-amazonico\/","title":{"rendered":"Constru\u00e7\u00e3o de estradas impacta mangue amaz\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div wp_automatic_readability=\"223.26476169215\">\n<p>No nordeste do Par\u00e1, a rodovia PA-458\u00a0divide a paisagem. De um lado, \u00e1rvores que chegam a 30 metros de altura. Do outro, as mesmas esp\u00e9cies n\u00e3o passam de 3 metros. As dimens\u00f5es\u00a0podem enganar, mas a rota n\u00e3o corta a floresta amaz\u00f4nica e, sim,\u00a0uma regi\u00e3o de mangue, mais especificamente um trecho da maior extens\u00e3o cont\u00ednua de manguezal do mundo.<\/p>\n<p>Basta olhar para o p\u00e9 das \u00e1rvores para notar as grandes ra\u00edzes fixadoras, que se parecem com patas de aranhas que superam a altura de uma pessoa, e as muitas ra\u00edzes a\u00e9reas, que emergem da lama como milhares de galhos cravados no solo.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-right\" wp_automatic_readability=\"3.7597173144876\">\n<h6 class=\"meta\">\u00c1rea de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caet\u00e9-Tapera\u00e7u monitorada pelo projeto Mangues da Amaz\u00f4nia.\u00a0<strong>Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=428331--><\/h6>\n<\/div>\n<p>Coordenador-geral do projeto Mangues da Amaz\u00f4nia, o professor titular da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) Marcus Fernandes\u00a0afirma que, nesses ambientes, as estradas s\u00e3o as maiores vil\u00e3s. Al\u00e9m de 90% das vias n\u00e3o pavimentadas estarem\u00a0a 3 km das \u00e1reas de mangue, <strong>rodovias como a\u00a0PA-458\u00a0impedem que a \u00e1gua escorra por\u00a0todo o ecossistema, o que seca a lama, essencial para sua vegeta\u00e7\u00e3o. Com isso,\u00a0as \u00e1rvores t\u00eam dificuldades para crescer e se desenvolver, o que pode lev\u00e1-las a morte.<\/strong><\/p>\n<p>A obra da rodovia PA-458, que liga o munic\u00edpio de Bragan\u00e7a \u00e0 praia de Ajuruteua, come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1970 no governo de Fernando Guilhon, mas foi conclu\u00edda apenas em 1991, na gest\u00e3o do ent\u00e3o governador Jader Barbalho, que atualmente \u00e9 senador pelo MDB. O objetivo era escoar a produ\u00e7\u00e3o de pesca e melhorar a acessibilidade das comunidades locais.<\/p>\n<p>Segundo Fernandes, a rodovia \u00e9 considerada um dos maiores impactos na regi\u00e3o, na por\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica desse ecossistema, atingindo 200 hectares de mangue, o equivalente a cerca de 180 campos de futebol.\u00a0<\/p>\n<p><strong>EUA promete ataques ainda maiores caso Ir\u00e3 reaja a bombardeio<\/strong><\/p>\n<p><strong>Caminhada de mulheres l\u00e9sbicas protesta contra viol\u00eancias e racismo<\/strong><\/p>\n<p>Com dimens\u00f5es superlativas, o manguezal amaz\u00f4nico \u00e9 tamb\u00e9m de dif\u00edcil acesso. <strong>A abertura de estradas, principalmente as n\u00e3o pavimentadas, \u00e9 o que possibilita a entrada nesse ecossistema. Se, por um lado, ajuda as popula\u00e7\u00f5es locais, por outro, facilita a explora\u00e7\u00e3o dos mangues tamb\u00e9m de forma prejudicial.<\/strong> \u201cEsse \u00e9 o grande avan\u00e7o silencioso em dire\u00e7\u00e3o ao manguezal. Eu tiro caranguejo e ningu\u00e9m me v\u00ea, corto madeira e ningu\u00e9m v\u00ea\u201d, diz o professor. \u00a0<\/p>\n<p>Al\u00e9m de facilitar o acesso, as estradas causam, por si s\u00f3, impacto, como o observado ao longo da PA-458. \u201cEsse barramento de \u00e1gua fez com que esse mangue morresse\u201d, diz o bi\u00f3logo Paulo C\u00e9sar Virgulino, um dos coordenadores do projeto Mangues da Amaz\u00f4nia. \u201cAqui, n\u00e3o era vegetado, tinham troncos da floresta antiga que morreu\u201d.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-left\">\n<h6 class=\"meta\">O bi\u00f3logo Paulo C\u00e9sar Virgulino, coordenador de planejamento de manguezais do projeto Mangues da Amaz\u00f4nia, em \u00e1rea de reflorestamento.\u00a0<strong>Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=428316--><\/h6>\n<\/div>\n<p>Virgulino se refere a um trecho, ao longo da rodovia PA-458, de 14 hectares \u2500 o equivalente a quase 13 campos de futebol. Nesse local, onde antes havia tocos de \u00e1rvores, foi o trabalho de projetos de recupera\u00e7\u00e3o do mangue, que possibilitou a volta da vegeta\u00e7\u00e3o ao local.<\/p>\n<p>Desde 2005, o professor Marcus Fernandes trabalha na regi\u00e3o. Na \u00e9poca, n\u00e3o havia plantios espec\u00edficos para o mangue e foi preciso importar t\u00e9cnicas da \u00c1sia. A ideia \u00e9 que um solo plantado \u00e9 tamb\u00e9m capaz de reter mais a \u00e1gua que chega, ainda que em volume menor que o de antes. A redu\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 \u00e1gua faz com que as plantas n\u00e3o se desenvolvam plenamente e formem a denominada floresta an\u00e3, mais baixa que a vizinha, do outro lado da estrada, com maior acesso h\u00eddrico.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA gente tem uma floresta que ainda n\u00e3o \u00e9 a ideal, mas j\u00e1 \u00e9 muito melhor do que n\u00e3o ter. Aquele ambiente totalmente nu, aquele solo nu que parecia um sert\u00e3o no ver\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o tem mais\u201d, diz Virgulino.<\/p>\n<h2>Mangues e a \u00e1gua<\/h2>\n<p>O caso da rodovia PA-458 \u00e9 um exemplo da fragilidade do ecossistema e dos impactos que a priva\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 \u00e1gua pode gerar em manguezais. O projeto Mangues da Amaz\u00f4nia trabalha com o mapeamento dos mangues, com o reflorestamento e tamb\u00e9m com a sensibiliza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es que vivem pr\u00f3ximas aos manguezais e que deles tiram o sustento de suas\u00a0fam\u00edlias. O projeto atua nos munic\u00edpios paraenses de Tracuateua, Bragan\u00e7a, Augusto Corr\u00eaa e Viseu, que abrigam, respectivamente, as\u00a0reservas extrativistas (resex) Resex Marinha de Tracuateua,\u00a0Resex Marinha de Caet\u00e9-Tapera\u00e7u,\u00a0Resex Ara\u00ed-Peroba,\u00a0e Resex Gurupi-Piri\u00e1.<\/p>\n<p>Para recuperar o mangue, s\u00e3o usadas diferentes t\u00e9cnicas de plantio. Uma delas \u00e9 o cultivo de mudas em viveiros, que, posteriormente, s\u00e3o plantadas em \u00e1reas degradadas. O projeto conta com dois viveiros, cada um com capacidade para 20 mil mudas. Na Vila do Tamatateua, Mois\u00e9s Ara\u00fajo, de 44 anos, atua como agente social do projeto, mobilizando a comunidade e cuidando do viveiro.<\/p>\n<p>\u201cA gente morava em torno do mangue e n\u00e3o tinha consci\u00eancia da import\u00e2ncia dele. Muitas vezes, a gente que mora pr\u00f3ximo do mangue acha que o mangue \u00e9 s\u00f3 para tirar o caranguejo, tirar o sustento, tirar o sururu, e ningu\u00e9m deve fazer nada. A partir do projeto, a gente passou a ter essa consci\u00eancia de que, al\u00e9m de tirar o sustento, a gente tem que preservar, a gente tem que que reflorestar\u201d, conta.<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-medio_4colunas type-image atom-align-right\">\n<h6 class=\"meta\">O agente social do projeto Mangues da Amaz\u00f4nia Mois\u00e9s Ara\u00fajo, na Vila do Tamatateua, na \u00e1rea da Reserva Extrativista Marinha de Caet\u00e9-Tapera\u00e7u.\u00a0<strong>Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=428341--><\/h6>\n<\/div>\n<p>Segundo Ara\u00fajo, o viveiro \u00e9 um projeto para o futuro da sociedade. \u201cA partir do momento que a gente usa o mangue de forma n\u00e3o sustent\u00e1vel, a gente est\u00e1 esquecendo que tem outras gera\u00e7\u00f5es que podem precisar. Ent\u00e3o, o ideal \u00e9 que a gente tire de forma sustent\u00e1vel, tendo consci\u00eancia de que outras pessoas precisam\u201d.<\/p>\n<p>Atuando h\u00e1 20 anos na recupera\u00e7\u00e3o do mangue, ele j\u00e1 percebe os resultados. \u201cMais adentro, tinha um grande espa\u00e7o degradado que, hoje, a gente v\u00ea todo cheio. A gente anda daqui para l\u00e1 e v\u00ea a presen\u00e7a de caranguejo e de muitos outros animais\u201d, diz.<\/p>\n<p>Os viveiros recebem tamb\u00e9m a visita de escolas que ajudam no plantio de mudas e usam o espa\u00e7o para educa\u00e7\u00e3o ambiental. Clarice dos Santos, de 17 anos, e Taynara da Silva, de 15 anos, participaram pela primeira vez do projeto. Embora vivam pr\u00f3ximas ao mangue, n\u00e3o conheciam de perto as especificidades da vegeta\u00e7\u00e3o e nunca tinham participado de um plantio.<\/p>\n<p>\u201cEu achei muito importante para n\u00f3s. \u00c0s vezes, est\u00e3o desmatando muito, e \u00e9 importante\u00a0plantar, para estar sempre lindo assim do jeito que ele \u00e9\u201d, diz Taynara.<\/p>\n<p>\u201cUma experi\u00eancia muito legal, que eu nunca ia saber se n\u00e3o tivesse vindo. Eu quero passar a ajudar nesse projeto\u201d, concorda Clarice.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">A estudante Taynara da Silva trabalha no viveiro de mudas de mangue do projeto Mangues da Amaz\u00f4nia da Vila do Tamatateua, na \u00e1rea da Reserva Extrativista Marinha de Caet\u00e9-Tapera\u00e7u.\u00a0<strong>Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=428337--><\/h6>\n<\/div>\n<h2>Mangues na Amaz\u00f4nia<\/h2>\n<p>Os manguezais s\u00e3o \u00e1reas \u00famidas que est\u00e3o entre o mar e a terra firme. As esp\u00e9cies vegetais e animais que ali vivem s\u00e3o resistentes ao fluxo das mar\u00e9s e ao sal. As ra\u00edzes densas dos manguezais ajudam a estabilizar o solo, prevenindo a eros\u00e3o costeira causada por ondas e correntes mar\u00edtimas.\u00a0Al\u00e9m disso, a vegeta\u00e7\u00e3o densa age como uma barreira natural, reduzindo o impacto de tempestades e furac\u00f5es, protegendo as \u00e1reas costeiras e as comunidades pr\u00f3ximas.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os manguezais s\u00e3o ainda ecossistemas com alta capacidade de sequestrar e armazenar carbono atmosf\u00e9rico, contribuindo significativamente para a mitiga\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">Vista de um bra\u00e7o do Rio Caet\u00e9 em \u00e1rea de manguezal na Reserva Extrativista Marinha de Caet\u00e9-Tapera\u00e7u monitorada pelo projeto Mangues da Amaz\u00f4nia.\u00a0<strong>Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/strong><!--END copyright=428303--><\/h6>\n<\/div>\n<p>O Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds com maior extens\u00e3o de manguezal, com 14 mil quil\u00f4metros quadrados (km\u00b2) ao longo da costa, ficando atr\u00e1s apenas da Indon\u00e9sia, com cerca de 30 mil km\u00b2. 80%\u00a0dos manguezais em territ\u00f3rio brasileiro est\u00e3o distribu\u00eddos em tr\u00eas estados do bioma amaz\u00f4nico: Maranh\u00e3o (36%), Par\u00e1 (28%) e Amap\u00e1 (16%).<\/p>\n<p>De toda a extens\u00e3o amaz\u00f4nica, a maior parte est\u00e1 em 120 unidades de conserva\u00e7\u00e3o que abrangem 12 mil km\u00b2, 87% do ecossistema em todo o Brasil. Isso faz com o que o Brasil tenha o maior territ\u00f3rio cont\u00ednuo de manguezais sob prote\u00e7\u00e3o legal de todo o mundo, de acordo com os dados do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio).<\/p>\n<p><em>*A equipe da Ag\u00eancia Brasil viajou \u00e0 Bragan\u00e7a entre os dias 11 e 14 de junho para conhecer o projeto Mangues da Amaz\u00f4nia, a convite da Petrobras, patrocinadora do projeto.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No nordeste do Par\u00e1, a rodovia PA-458\u00a0divide a paisagem. 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