Na disputa entre vascaínos, Lula vence Flávio Bolsonaro e é reeleito presidente da República
Na disputa entre vascaínos, Lula vence Flávio Bolsonaro e é reeleito presidente da República
💢 Lula reeleito.
Em eleição acirrada entre dois vascaínos, Luiz Inácio Lula da Silva vence Flávio Bolsonaro de virada e se elege presidente do Brasil pela 4ª vez.
Fonte: X Mídia Vascaína
Em virada histórica, Lula é reeleito e governará Brasil pela quarta vez
Lula (PT), 80, foi reeleito hoje presidente do Brasil, comandando uma virada inédita na história do Brasil, ao ganhar as eleições depois de ter ficado em segundo lugar no primeiro turno —isso nunca havia acontecido.
Ele derrotou Flávio Bolsonaro (PL), 45, na eleição mais acirrada que o país já teve.
Com 99,95% das urnas apuradas, Lula tem 51,78% dos votos e Flávio, 48,22%. As taxas de abstenção e de votos inválidos foram as mais baixas desde 2002 —cerca de 3 milhões de pessoas que não votaram no primeiro turno compareceram às urnas neste domingo.
Com mais de 64 milhões de votos, o petista obteve a maior votação já registrada em uma disputa de segundo turno no Brasil —o recorde anterior era do próprio Lula, que conquistou 60 milhões de votos nas urnas durante a segunda etapa de 2022, contra o então presidente Jair Bolsonaro (PL).
Esta é a quarta vez que Lula vence a disputa para a Presidência, e será também a última. Ele não pode concorrer à reeleição em 2030 e já declarou que o pleito de 2026 foi sua despedida das urnas.
A vitória ocorre após uma campanha que, em sua reta final, levou a militância de volta às ruas, de um jeito que fez Lula lembrar de quando concorreu pela primeira vez à Presidência da República, em 1989 —naquela estreia, ao contrário do que ocorreu agora, o clamor das ruas não foi suficiente para que ele vencesse a disputa no segundo turno.
Em 1989, ele foi derrotado por Fernando Collor (PRN), então com 40 anos.
A vitória de Lula tornou real o sonho de uma militância que, a partir do dia 23 de outubro, quando pesquisa Datafolha indicou cada candidato com 50% dos votos válidos, acreditou na chance de uma virada —embora tenha ficado apreensiva com novos levantamentos que, na véspera da eleição, indicavam a vitória de Flávio.
Os atos pelo Brasil e o canal de WhatsApp “Exército de Lula” deram gás à campanha. Dentre os atos, um deles foi considerado histórico: o encontro na avenida Paulista, no dia 24 de outubro, reuniu dois milhões de apoiadores, segundo levantamento da campanha de Lula.
De maneira inédita, a campanha petista pôde se valer de um movimento digital de massas, graças à iniciativa do deputado federal André Janones (Rede-MG) de criar o “Exército do Lula”, canal de WhatsApp que reuniu 10,8 milhões de seguidores.
O canal chegou a ser suspenso em 11 de outubro pelo presidente do TSE Kassio Nunes Marques, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, e liberado depois pelo ministro da corte eleitoral Floriano de Azevedo Marques.
Os seguidores recebiam missões de Janones, como engajamento em publicações, pesquisas com menções desfavoráveis a Flávio na internet e participação em atos e lives.
A militância digital comandada pelo deputado mineiro transformou uma campanha apática de primeiro turno em um movimento de massas enérgico, que despertou senso de importância, pertencimento e responsabilidade em eleitores anônimos.
Em vez dos artistas de sempre cantando “Lula lá, brilha uma estrela” em posts no Instagram, passaram a proliferar memes de gente comum fazendo graça com o bordão de Janones, “EXPLODE”, escrito em letras maiúsculas para inflamar os seguidores do canal. Obedecer às ordens de Janones —dadas aos gritos, em um estilo usualmente associado à direita— tornou-se uma atitude descolada.
A campanha do segundo turno também conseguiu algo tido como improvável, que foi associar a camisa da seleção brasileira ao candidato do PT. Em uma de suas missões, Janones orientou seguidores no sábado (17) a fotografar-se com as cores nacionais e postar a imagem nas redes, fazendo o L com os dedos —teve ampla adesão.
Lula conseguiu se eleger presidente pela quarta vez a despeito do sentimento de antipetismo que aflorou em parte do eleitorado desde que o partido passou a ser envolvido em escândalos de corrupção —como o mensalão, em 2005, e esquemas envolvendo empreiteiras revelados pela operação Lava Jato, a partir de 2014. A campanha de Flávio explorou à exaustão o desgaste da imagem do PT e de Lula com bordões como “tchau, tchau, PT”, e “Lula, ladrão, seu lugar é na prisão”.
Definida por Lula como a “mais desorganizada” desde 1989, a campanha de primeiro turno foi marcada pelo clima de intrigas e disputa entre os integrantes. Edinho Silva, coordenador nacional e presidente do PT, foi acusado por colegas de partido de privilegiar a própria campanha para deputado federal por SP (ele foi eleito) em detrimento da reeleição de Lula, o que ele nega.
A primeira-dama Janja também foi alvo de críticas. Petistas históricos dizem que ela isolou Lula de aliados capazes de lhe apontar os erros e dizer verdades, cercando-o de interlocutores que o reverenciam como a um ídolo. Algumas decisões atribuídas a ela também foram alvo de questionamentos, como a montagem dos palanques dos comícios em forma de T, para que Lula os percorresse e, do alto, cumprimentasse os presentes, “como um artista”, na definição de um integrante da velha guarda do PT.
A reduzida interação de Lula com lideranças locais nas cidades que percorreu foi apontada como um dos fatores para a “frieza” da campanha de primeiro turno.
Apesar da insatisfação com a campanha, Lula estava confiante de que venceria a eleição já em 5 de outubro, como disse em pronunciamento à imprensa e a apoiadores após o resultado nas urnas. Na ocasião, o abatimento era visível nas feições dos que ocupavam o palco do hotel Renaissance, em São Paulo, local escolhido para o pronunciamento —entre eles, figuras que também haviam sido derrotadas nas urnas, como Fernando Haddad (para o governo de SP), Marina Silva e Simone Tebet (ambas para o Senado de SP).
O susto com a dianteira de Flávio forçou a campanha a mudar de rota e procurar os vitoriosos —fora de São Paulo. Camilo Santana, ex-ministro da educação e ex-governador do Ceará (onde emplacou a vitória à reeleição de Elmano de Freitas) assumiu a coordenação da campanha. Rafael Fonteles, governador do Piauí reeleito no primeiro turno, também foi convocado a ajudar na disputa no segundo turno.
O choque também fez acordar a militância, avalia José Dirceu, ex-ministro de Lula e ex-deputado federal (não conseguiu se eleger em 2026). “Isso fez com que uma parcela grande do eleitorado que não tinha ido votar entrasse na campanha”, disse ao UOL durante ato de apoio a Lula no Tuca, teatro da PUC em São Paulo, no dia 22 de outubro.
André Janones se impôs na campanha à revelia de petistas que não gostam de seu estilo agressivo —Paulo Delgado, ex-deputado federal e um dos fundadores do PT, disse à Folha de S.Paulo que o termo “exército” é “patético” e desrespeita as vítimas da ditadura. A despeito da má vontade de muitos, Janones “pôs o circo de pé” —como disse um petista histórico ao UOL reservadamente— após tentativas da campanha de criar uma mobilização digital em massa com jovens deputados bem-sucedidos nas urnas e com desenvoltura nas redes, a exemplo de Ana Elisa (PT-MG).
Embora tenham atuado na campanha, nenhum dos chamados “influenciadores” conseguiu algo parecido ao êxito de Janones. Quando ele passou mal no debate da Band e ficou internado em um hospital, o canal de WhatsApp permaneceu 19 horas parado. Não houve ninguém capaz de substituí-lo. Ao UOL, um petista da velha guarda disse que isso era “motivo de vergonha”. Na avaliação dele, o episódio mostrou a dependência que a campanha tinha de Janones —no PT, disse, não havia ninguém preparado para comandar um movimento de massas nas redes.
Lula já é o segundo presidente que mais tempo ficou no cargo no Brasil. Caso termine o quarto mandato, irá se aproximar de Getúlio Vargas, com quem gosta de se comparar. Terão sido 16 anos, contra 18 do gaúcho.
“Onde minhas pernas não puderem alcançar, eu andarei com as pernas de vocês. Onde minha voz não puder ser ouvida, eu falarei pela voz de vocês”, afirmou em ato na rua Augusta, em São Paulo, às vésperas do primeiro turno, para uma multidão de apoiadores.
O recado pode ser encarado como uma referência ao trecho final da carta-testamento de Getúlio. Em agosto de 1954, antes de se matar, ele escreveu: “Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo a vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta”.
Lula foi eleito quatro vezes —em 2002, 2006, 2022 e 2026—, ao passo que Getúlio chegou ao poder uma única vez pelo voto popular, em 1950, e comandou um governo ditatorial entre 1937 e 1945, o Estado Novo.
Outro aspecto em comum entre eles é que ambos voltaram à Presidência após um hiato longe do poder. No caso de Lula, foram 12 anos. De Getúlio, 5. Também terão sido os dois políticos que deixaram a presidência com mais idade. Getúlio tinha 72 quando se matou no Palácio do Catete, no Rio. Lula terá 85 no fim de 2030.
Durante a campanha de primeiro turno, o reforço ao legado de Lula —referências constantes ao que ele havia realizado nos dois primeiros mandatos, quando promoveu uma inclusão social inédita na história do país— foi considerado excessivo, tendo ofuscado as propostas do presidente para o futuro.
Era uma campanha que olhava para trás, e não para a frente, de acordo com avaliação de petistas ouvidos pelo UOL.
Além do legado de Lula, procurou-se exaltar a trajetória improvável do menino que nasceu no sertão de Pernambuco, enfrentou a fome, migrou para São Paulo, trabalhou como engraxate e office-boy e, aos 17, teve um dedo decepado quando atuava como torneiro mecânico, durante a madrugada. Do operário que dizia não gostar de política, mas que, mesmo assim, tornou-se líder dos metalúrgicos do ABC paulista e fundou um dos maiores partidos de esquerda do mundo ocidental, o Partido dos Trabalhadores.
Fonte: UOL